Depoimentos

Hortência Barreto (Aracaju/SE) – Artista Plástica

“Uma mulher, cheia de tentáculos, desliza sua pena pelo terreno dos mitos e da fantasia.  É a sensação imediata e intuitiva que me ocorre ao visitar sua galeria de imagens. A representação que ela faz do real ultrapassa os limites do possível e do verossímel, no conteúdo da sua dimensão plástica.

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Tento, aqui, compreender e explicar, talvez, o por quê  dos sentimentos que mobilizam essas minhas impressões e meu imaginário; e, principalmente, os dessa mulher que os provoca.

Cybele, a Boa Deusa, a “ Mãe dos Deuses”, a Grande Mãe, esposa de Saturno e mãe de Júpter, divindade oriental, cultuada na Frígia ( hoje, Turquia), foi depois introduzida na Grécia e em Roma.

E assim,  dessa descendência histórica, surge Cybele Ramalho, que vem com um mapa- mundi tatuado na alma e um olhar simbólico. Daí, compreendemos a sua verve tão fantástica e o universo dos personagens que povoam a sua obra.

Ela navega entre o Mediterrâneo e o Atlântico e aporta no nordeste brasileiro. Do seu mergulho, submerge a artista com as mãos cheias de tintas, pincéis, medusas, serpentes, paixões, conflitos, lembranças, tentações.

Aqui, no seu contexto nordestino, ela constrói a própria mitologia. É o caso dos seres femininos, caboclos: a “Mulher- polvo” e a “Pescadora”, com a peixeira na mão. Nessa situação, ela parece tratar da saga universal do feminino, do atual feminino, que a modernidade trouxe à luz – a mulher multitarefa, animal “anfíbio”, a mulher prenhe de tentáculos e tantas responsabilidades dos seus diversos papéis. A mulher peixeira, com muita fibra e raça mostra a sua “cor’, em um óleo mestiço sobre a pele e sobre a tela.

E Cybele, entre tantos outros tentáculos e através deles, revela a artista consciente de seus domínios, ou seja, do meio técnico que expressa sua linguagem — a forma. Possui um desenho voluptuoso de traços e linhas que se enrolam e se desenrolam, em bico de pena, dando um movimento intenso às composições. Corpos nus exibem uma perfeita harmonia anatômica, e cheios de conteúdo e significado, postam-se diante de nossos olhos em misteriosas duplicidades, provocando mais ainda a compreensão da  nossa identidade e da nossa  existência.”

 

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Depoimento de Milton Coelho  (artista plástico – Aracaju, SE):

“A artista é fruto do nordeste brasileiro, mas não é somente uma artista nordestina. Intuitivamente, a artista se opõe a uma leitura polarizada da realidade, resgatando relações, unidades, vias de integração. Isto se torna visível na imagem que ela produz onde, cada elemento nasce do todo, dificultando e, ao mesmo tempo, quebrando todos os limites e fronteiras. Por exemplo, no seu trabalho, sei que é uma serpente, mas vai se tornando corpo, sei que é uma árvore, mas vai se tornando animal, e assim por diante. No caldo do surrealismo, situa-se também no realismo fantástico.

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Quando a artista fez a leitura da sociedade e viu que uma leitura fronteirizada não lhe servia, ela foi para a essência, para o arquetípico: o mito, o feminino no seu original mais  radical. Fez uma leitura própria das imagens do inconsciente, do universo e das narrativas oníricas.  Na sua obra está muito presente a ideia da fluidez e da permeabilidade.

Tecnicamente, ela já domina os recursos do desenho, mostrando uma trajetória de intensa relação e maturidade. A cor aparece na sua obra como portadora de dois convites: o primeiro na tensa relação com o desenho, em que estes dois recursos gráficos possam dialogar, harmonizar-se, viver um conflito interessante, desafiador; o segundo, nos convida a penetrar no mundo da pintura, campo dominado profundamente pela cor “.

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Ricardo Maia Rabelo (São Paulo/SP) – Artista plástico

“Cybele, talento nato, seus traços transcendem o real e nos leva a uma viagem lúdica entre elementos simbólicos dentro de uma harmonia impecável. Parabéns por ter retomado suas atividades artísticas e nos presenteado com sua ARTE.”

 

Adriano Távora  (Curitiba/PR) – Diretor de teatro e tradutor

“Ao conhecer o trabalho em pintura de Cybele, pensei na lua. Na lua plena. E logo na lua das outras fases, ela que nos vira o rosto e oferece a outra face. Sempre. Lentamente. Maduramente. Conduzindo nosso olhar para um outro semblante, mais obscuro.
Estão em seus quadros este sermos humanos, coroados com todo o realismo, por si só fantástico, da ambientação nordestina, os rostos marcantes (porque marcados), a alegria, o sonho, a exuberância de cores, os signos da natureza e a dor.

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Ah, a dor…
E, assim, o humano, demasiado humano, vem transpirado pela intelectualidade apurada da pré-obra de Cybele, como psicodramatista e escritora. São quadros dramáticos, é claro. Um filósofo diria: aquela lua só existe porque nossos olhos a olham. E pelo viés analítico da artista, aglutinado, caso a caso, gota a gota, como uma espécie assim de seiva de uma árvore da vida,  vislumbramos melhor a parte negra da lua, este móbile de gente grande pendurado no firmamento. Após o banho de luminosidade sexualíssima no plenilúnio, o fantástico e o real entram em mútua perseguição, interagindo no outro lado, escuro, obscuro, mas agora mais visível…
Ali transitam os dragões de cada um, ou um templário, num magnífico cavalo branco,
empunhando uma espada e uma lança; ou quem sabe a pegada de algum simpático astronauta,
ou uma flor e seu príncipe, eternamente pequeno…”

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Ana Elisabeth Castelo Branco Rabelo (Salvador/BA) – Analista e Artista Plástica

“As figuras feitas por Cybele Ramalho são um elo entre a fantasia e a realidade exterior, que constituem seu espaço. Mostram-se como uma expressão da dualidade existente entre os opostos que necessitam ser harmonizados. Seus traços primam pela sinuosidade, uma caminhada desordenada pelos labirintos da alma. A presença dos tons escuros destaca os aspectos sombrios e profundos da psique. Apresenta o confronto entre formas vegetais, animais e humanas, assim como entre o masculino e o feminino  e as forças do divino, da fertilidade e vigor selvagem, que emergem da criação artística.

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Outras expressões encontradas em seus desenhos, além do conteúdo onírico marcado pelo surreal, são manifestações que constituem as diversas formas da psique. Portanto, podem se utilizadas como recurso terapêutico, no processo de autoconhecimento. É dar significado aos aspectos obscuros que impedem o fluir da vida por não serem captados pela consciência de maneira lógica.

Esse material figurativo se expressa pela forma simbólica e caótica, que pedem uma interpretação ordenada pela consciência. Conclui-se assim que, em todo processo criador não interfere a razão lógica. Do ponto de vista emocional o processo artístico é uma manifestação de uma situação angustiante diante das exigências do inconsciente,  que não quer calar e fala numa linguagem pré-verbal e fantástica. Ao projetar suas exigências por meio das figuras simbólicas essa parte do psiquismo se revela através de um espaço tomado pelo mistério enigmático, muitas vezes expresso por imagens enigmáticas – como a esfinge, de Tebas.

A importância da arte fantástica se mostra como instrumento de abertura ao mundo não de todo explorado do inconsciente. Cybele, como poucos, soube dar valor a essa linguagem nem sempre bem traduzida e de suma valia para os pesquisadores da alma.”

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Aldo Rezende de Melo (Aracaju/SE) – Ator e Psicólogo

“Esse momento da Cybele é um momento de libertação de um certo mundo que ficou muito tempo trancado em uma mulher. Nós somos corpo, mas também somos dilatação do espírito. Por algum motivo o artista vive rupturas. Uma delas é um lado de realização profissional e atividades formais e apesar de Cybele nunca ter sido uma cientista tradicional ela tem muitas produções, mas sempre perpassadas de arte. As raízes, as árvores, as folhas, a água, tudo isso está sempre à mostra na arte dela, que é uma pessoa que contribuiu muito para o psicodrama em nosso país.  Cybele é uma pessoa muito respeitada e mais parece que não tem corpo para tudo o que ela pensa, algo que transborda dela em produção. Psicologia, arte Junguiana, é um “abraço de polvo”, é alma, o “self” dela.

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Falar da arte é falar da vida. O arte fantástica é um desdobramento do surrealismo, é algo muito terra, muito cheio de barro, algo nordestino, coisas cheias de detalhes, se entrelaçando. Uma arte detalhista, algo que transcende a matéria, uma visão fantástica.

Ela tem um lado da deusa. Fala das nossas influencias espirituais, Iemanjá em seu lado guerreira. Um feminino livre. Mesmo em obras com presença masculina, o feminino não se reduz! Ela não seduz para ter o homem, ela é político-orgânico, com uma libertação que mexe com o íntimo, acordando uma deusa dentro dela. É impressionante como ela transita pelos conceitos. Como diretor de teatro vejo que as imagens estão sempre com o dramático. Deuses, como forma de expressar aquilo que não cabe em nós.”

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Bené Nascimento (Aracaju/SE) – Artista Plástico

“O que foi que percebi em pouco tempo? Trata-se de um realismo fantástico na obra dela, horas mais para o figurativismo,  horas para uma forma linear, não tanto abstracionista, mas às vezes com elementos de caráter geométrico. No que se diz a uma imagem colorida, são formas de um ser humano ou de elementos representacionais, o fantasioso.  Nas obras a óleo vejo um equilíbrio harmonioso, não necessariamente bonito, Narciso, mas harmonioso.

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No que se trata das obras há uma diversidade técnica, que não e ruim, mas louvável! Ela simplesmente se expressa de formas diferentes e não vejo nenhum problema, pelo contrário, acho que é uma necessidade de qualquer um para se expressar.

Tem um elemento que é mais simbólico e norteador nas imagens que é a figura humana, associado ao pensamento de trabalho que ela tem. Este também representa desdobramentos, mostrando toda uma sequência da obra, juntamente com as cores, que estão em harmonia com os elementos equilibrados. E dentre as obras dela, a gente consegue ver Cybele nos desenhos, parte da obra dela que mais me identifico, pois acredito que eles são o elemento maior da representação.”

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Neusa Salles (Aracaju-SE) – Fonoaudióloga e Artista Plástica

“Desde o início do meu acompanhamento do trabalho da artista Cybele Ramalho percebi obras detalhistas e cheias de sentimentos. Cabelo, liberdade, olhar observador, cores fortes, como amarelo e verde, sempre combinados a sentimentos ambivalentes, como o homem e a mulher, o forte e o fraco, o amor e o ódio, a suavidade com a força. Já na evolução ela vem passando para a tela uma harmonia de sentimentos e cores, passando emoção, porém com realismo. Olhares diferentes, sofridos nas primeiras obras e agora o branco e preto passando sentimentos mais maduros. E houve também uma mudança de fases na obra dela, de Moreno para Jung. Moreno trabalhando com o real, aqui e agora, o Jung com o transpessoal.

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Percebo também que as obras dela têm muitos detalhes. Ela teve contato com as artes, o que a treinou, mostrando uma habilidade para mostrar o pessoal e o coletivo. Ela é uma pessoa que pega uma tela em branco e vai do máximo ao mínimo, mostrando isso dos seus trabalhos com nanquim, que é algo mais delicado, até seus trabalhos com aquarela, que é algo mais livre.”

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Paulo Lobo (Aracaju/SE) – Músico

“Eu me identifiquei muito com a obra dela. Em primeiro plano os símbolos que têm muito de Jung e dos arquétipos e das gravuras do trabalho dela. Me agrada muito a pintura dela pelo colorido, pelas formas e principalmente pelos símbolos que demonstram uma leitura do inconsciente junto com o realismo fantástico visto na literatura, algo que me encanta.

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Gostaria muito que o meu trabalho também tivesse um pouco do onírico, do aflorar do inconsciente, visto nas obras dela. Na música é difícil um compositor popular penetrar tão a fundo como o que é visto no trabalho dela, da forma como a pintura consegue penetrar, de forma mais forte.

Um outro detalhe que ela traduz muito bem é o lado mulher, a alma feminina, mostrando que a mulher tem esse lado mais humano, mais generoso, algo que fica visível que ela entende muito bem.”

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